É por entre a sombra que se calará a música. Silêncio definitivo ou solidão ou morte ou o que se disser disto e dito que seja será em voz baixa, um sopro, uma brisa que nem se possa sentir como mais do que o nada. Só escuridão do lado onde não se reflectem brilhos nem sons. E, está bem, que fique a crença na existência de um lado de lá.
Arrastam no rasto da chuva mole e quente o som do metal gasto como uma engrenagem que não presta.
Não se ouvem pássaros neste chão húmido que é só uma miragem, uma sombra que se abre por dentro dos olhos que estão cerrados na noite. Único leito. Único céu.
Porque só existe o que não pode ser dia.
Porque só existe a cor daquilo que foi outrora qualquer coisa que não chegou a ser mais do que isto: um resto gasto de máquina e quase nada.
Um coração está sempre onde pensamos que está do mesmo lado, certo, batendo com precisão, metodicamente funcional, importante no seu lugar vital, vizinho da mesma morte. Agitamo-lo entre os dedos e esmagamos esse suco dentro do copo em que nos tragamos num brinde ridículo a qualquer coisa sem nome, qualquer coisa fria e metálica que é sombra alojada na ferida que trazemos pendurada na lapela. O nosso troféu é aniquilarmos essa voz e, uma vez misturado com duas pedras de gelo, engolirmos golo a golo essa engrenagem de carne e músculo. Golo a golo, certeiro, tiro a tiro, até não que não se ouçam bater as suas asas vermelhas.
Esta belíssima canção inspira-se nestas belíssimas palavras do poeta Frederico García Lorca. Ora vede:
Pequena Valsa Vienense (F. G. L.)
Em Viena há dez raparigas, um ombro onde a morte soluça e um bosque de pombas dissecadas. Há um fragmento de manhã no museu da geada. Há um salão com mil janelas.
Ai, ai, ai, ai! Toma esta valsa com a boca fechada.
Esta valsa, esta valsa, esta valsa, de sim, de morte e de conhaque que molha sua cauda no mar.
Quero-te, quero-te, quero-te, com a poltrona e o livro morto, pelo tristonho corredor, no sótão escuro do lírio, na nossa cama da lua e na dança que sonha a tartaruga.
Ai, ai, ai, ai! Toma esta valsa de quebrada cintura.
Em Viena há quatro espelhos onde brincam tua boca e os ecos. Há uma morte para piano que pinta de azul os rapazes. Há mendigos pelos telhados. Há frescas grinaldas de pranto.
Ai, ai, ai, ai! Toma esta valsa que morre em meus braços.
Porque eu quero-te, quero-te, meu amor, no sótão onde brincam as crianças, sonhando velhas luzes da Hungria pelos rumores da tarde morna, vendo ovelhas e lírios de neve no silêncio escuro de tua fronte.
Ai, ai, ai, ai! Toma esta valsa do «Quero-te sempre».
Em Viena dançarei contigo com um disfarce que tenha cabeça de rio. Olha que margens tenho de jacintos! Deixarei minha boca entre tuas pernas, minha alma em fotografias e açucenas, e nas ondas escuras do teu andar quero, meu amor, meu amor, deixar, violino e sepulcro, as fitas da valsa.